Eu estou chegando a uma conclusão peculiar: a de que o governo Lula pode estar sendo bom para o Brasil.
Vejamos: sempre se diz que brasileiro não entende nada de política e que, com tanta sujeira, cada vez menos se interessa. As pessoas (os membros do "povo") estariam desiludidas e não ligariam para mais nada. Mas isso não é estritamente verdade: as pessoas estão desiludidas com o que vêem da política, verdade, mas não estão desinteressadas. Elas estão sempre procurando por uma saída, e é aí que reside o problema: na nossa Síndrome de Salvador da Pátria.
Para todos os efeitos práticos, a atual era da política brasileira começa em 1985, apesar de muitos nomes (todos?) serem muito mais antigos. Tancredo Neves era o salvador da pátria prototípico, mesmo não tendo sido escolhido diretamente pela população. Ele tinha toda a esperança do país nos seus ombros e, honestamente, não tinha a menor chance de atender a todas as expectativas. Se não tivesse morrido antes de assumir, hoje não seria lembrado com a reverência que recebe.
Sarney, que assumiu por acidente (e, argumenta-se, ilegalmente), não era o salvador esperado, mas aceitou o papel. A histeria coletiva ao redor do Plano Cruzado (o caro leitor foi um Fiscal do Sarney?) é típica de um culto, e ele era o nosso santo. O que veio depois das eleições seguintes foi a demonstração de que milagres, no fundo, não existem.
Fernando Collor, que assumiu alguns meses depois do final da novela Salvador da Pátria (da Globo), também tinha todos os sinais de ser um. A começar pelo fato de ter aparecido quase do nada ostentando o título de "caçador de marajás". Ele também assumiu o papel com vontade e, assim como Sarney, tentou acabar com a inflação por decreto, com resultados tão bons quanto. De novo, acabamos com o salvador reserva, Itamar Franco, que deu a sorte inacreditável de montar uma equipe econômica com alguma competência e sem deslumbramento. Note-se que, depois de Collor, o termo "marajá" praticamente desapareceu do vocabulário político brasileiro.
Itamar nunca foi nada que pudesse ser chamado de "salvador da pátria"; ele não tinha a personalidade para isso. Sim, assim como Collor (e, mais tarde, Lula), ele se deslumbrou com o poder e com o cargo de presidente, mas ele foi basicamente inofensivo. Pode-se argumentar que, no período em que as coisas funcionaram, quem estava governando mesmo era Fernando Henrique e o resto da equipe econômica.
A primeira eleição de Fernando Henrique foi, certamente, a título de salvador. E salvador aparentemente confirmado, uma vez que o Plano Real estava funcionando (e, comparando com o que veio antes, continua funcionando). A segunda eleição é algo um pouco mais complicado; acho que a melhor análise é a de que o povo ainda estava satisfeito com a situação e não precisava ser "salvo" de nada; ou então ainda tinha um certo medo de que a estabilidade não fosse durar. Provavelmente uma mistura dos dois. Fernando Henrique merece aplausos por (quase) nunca ter se comportado como um salvador da pátria e por não ter se deslumbrado (muito) com o poder; ele não fez um governo populista, na maior parte do tempo.
O que nos traz a Lula. Desde 1989, Lula posa de salvador da pátria, mas sempre foi preterido por salvadores que pareciam mais confiáveis. Em 2002, finalmente, o povo parece ter decidido que só Lula podia nos salvar. Lula também acreditava nisso, e assumiu com toda a intenção de se tornar um Atatürk brasileiro. Os resultados foram tão bons quanto com os nossos salvadores anteriores, mas se mostraram (ligeiramente) menos trágicos para a economia e para a população porque o país que Lula recebeu está muito mais estável do que nos casos anteriores.
Portanto, a sujeira toda que está aparecendo, que já era prevista (ao menos intimamente) por qualquer pessoa que tenha algum conhecimento dos bastidores da política brasileira e de governos socialistas em geral, pode ter um resultado positivo, se acoplada a outras circunstâncias. Primeiro, ela pode deixar claro para o povo em geral que Lula não tinha, nem tem, condições de salvar pátria nenhuma. O efeito imediato, claro, é procurar algum novo salvador, e já há sinais disso. Mas o candidato óbvio a salvador, Geraldo Alckmin, é alguém que tem tanto carisma quanto um pé de xuxu, com o perdão da comparação pouco criativa. É difícil ver Alckmin com um salvador, assim como era difícil ver José Serra no mesmo papel em 2002. Isso é algo difícil de corrigir com marketing.
Ou seja, chega-se a uma eleição na situação clara de se "precisar" de um salvador da pátria, mas sem nenhum salvador à vista. Alguns candidatos indubitavelmente tentam assumir conscientemente essa posição; o mais notável entre eles é Enéas, na minha opinião, mas esse é folclórico demais para ser levado a sério pela maior parte da população. Aécio Neves, se concorrendo, poderia ser um candidato sério ao posto de salvador; Germano Rigotto, idem (ele já fez esse papel na eleição para governador do RS); aparentemente nenhum deles será candidato, o que elimina essa possibilidade.
O que, finalmente, me traz à questão que levantei na primeira frase deste texto: o governo Lula, acoplado à falta de candidatos a salvador da pátria na próxima eleição, pode ser bom ao desiludir a população da idéia de que a saída é, sempre, escolher um salvador. Isso independe de Lula ser reeleito ou não; em qualquer situação a população estaria escolhendo alguém que claramente não é um salvador da pátria e que não resolverá todos os problemas do país. Quem sabe, daí, aos poucos, a gente começa a perceber que quem tem que resolver os nossos problemas somos nós, e não os habitantes temporários de Brasília.
Mas isso pode ser otimismo exagerado da minha parte.